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Novos Artigos – Eduardo Galeano e a exclusão social

Crédito: El Espectador

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“As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata”.

O reconhecido poema de Eduardo Galeano, Los Nadas (Os Ninguéns, em português), reproduzido acima, ilustra de forma artística a exclusão social na América Latina, retratando “seres humanos cuja existência é voluntariamente apagada ou ignorada nas manifestações culturais e nas relações sociais que conformam as hierarquias cotidianas e os modos de experiência de vida”.

O artigo Carolina Maria de Jesus e a autorrepresentação literária da exclusão social na América Latina: olhares reversos aos de Eduardo Galeano e Octavio Paz, publicado na última edição da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (n. 44, 2014), do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília, produziu um estudo comparativo acerca da imagem literária da exclusão social, tendo como foco a autobiografia da brasileira Carolina Maria de Jesus, e sua relação com a escrita do mexicano Octavio Paz e do uruguaio Eduardo Galeano — morto na última segunda-feira, 13, devido a complicações por um câncer no pulmão.

Sobre o escritor uruguaio, o artigo reflete que sua obra “denuncia o preço nulo que as classes dominantes atribuem aos ninguneados da nação, essas mesmas classes que, se retomamos o julgamento de Oscar Wilde, sabem o preço de todas as coisas, o valor de coisa alguma: ‘losnadies, que cuestan menos que la bala que los mata’”.

Ao fazer a análise comparativa das obras dos autores com Galeano, o artigo encontrou semelhanças para “trazer à luz e denunciar alguns entre os graves problemas crônicos dessa sociedade de identidade conflitante e corrediça: a América Latina”. Além disso, considerou que o conjunto da obra dos autores, “observa-se o impacto da exclusão social no processo de construção das identidades nacionais”.

“Nas páginas analisadas, percebe-se que tanto a forma quanto o conteúdo dos textos revelam traços de pertencimento social: por um lado, temos engajados autores representantes de segmentos hegemônicos da sociedade, cujas linhas revelam um pensamento sistêmico que, de um ponto de vista externo aos processos de exclusão social, denunciam a precariedade das relações sociais na América Latina; por outro lado, contrapõe-se a voz autoral de uma mulher que lê os fatos ao mesmo tempo que é vítima das assimétricas relações de poder decorrentes do processo de formação da América Latina”, assinalou Larissa Paula Tirloni e Marcelo Marinho, autores do estudo.

Leia o artigo completo, e veja também mais sobre a obra da brasileira Carolina Maria de Jesus, que segundo os atuores, “por meio da materialidade significante que se manifesta nas palavras lançadas por Carolina sobre a página branca, o leitor pode aprofundar sua compreensão da história e da cultura do continente latino-americano e, por extensão, da própria humanidade”.

Artigo: Carolina Maria de Jesus e a autorrepresentação literária da exclusão social na América Latina: olhares reversos aos de Eduardo Galeano e Octavio Paz
Autores: Larissa Paula Tirloni e Marcelo Marinho
Revista: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea (UnB)

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